Vândalos já atacam novos ônibus

- Bruno Lopes
Com três dias de uso, dois dos 29 novos ônibus da empresa Pantanal Transporte já apresentam sinais de vandalismo praticado pelos próprios usuários. Ambos os veículos fazem a linha 360 (Residencial Buritis/ Unic). Um teve o assento de um banco literalmente rasgado com estilete e o outro a parte interna pichada. Além disso, é comum ver em veículos mais antigos marcas da falta de conscientização dos usuários. Segundo o gerente de manutenção da empresa, João Luiz Drosdsky, são gastos, em média, R$ 18,5 mil por mês, com restauração e limpeza de marcas de vandalismo causadas nos ônibus.
 
De acordo com a Associação Matogrossense dos Transportes Urbanos (MTU), o transporte coletivo da capital e Várzea Grande sempre sofreu ações criminosas de vandalismo, seja no interior ou na parte externa dos veículos. A exemplo de rabiscos e pichações, além de cortes feitos nos encostos, assentos e até no cordão da campainha.
 
Um levantamento feito pelas empresas União Transporte (VG), Integração Transporte, Pantanal Transportes e Norte Sul mostra o índice alarmante de depredação nos assentos, somando juntas um prejuízo de aproximadamente R$ 25 mil ao mês. Os prejuízos na manutenção dos carros levaram algumas empresas a criarem pequenas oficinas de tapeçaria nas garagens. Apenas duas das empresas ainda mantêm o serviço terceirizado.
 
A Pantanal Transportes, responsável pelo maior frota de Cuiabá, com 209 ônibus, sendo que 190 em circulação ativa e o restante reserva, é uma das empresas que possui todos os setores de manutenção de ônibus dentro do próprio pátio. “Temos desde a parte mecânica, passando pela funilaria e pintura, tapeçaria e lavagem. A maior parte da manutenção necessária realizamos aqui. Mas, para serviços mais elaborados, como a reconstrução dos ônibus que foram queimados, enviamos para São Paulo”, explica o gerente de manutenção, João Luiz Drosdsky.
 
Segundo ele, por mês são reformados 180 encostos e acentos, o que representa um custo de R$ 3.850 mil. Além disso, outros gastos são elencados, como a reposição de cordão de campainha, puxadores, lacres de emergência e vidros das janelas. “É um custo alto e que poderia ser evitado. A população não entende que quem faz uso dos veículos é ela própria e que todos os gastos de manutenção serão refletidos no próximo reajuste da tarifa. Poderíamos ter ônibus em condições muito melhores, caso os usuários colaborassem”.
 
Drosdsky diz ainda que por mês são pagos cerca de R$ 40 mil para manutenção de chaparia e tinta. “Em muitos bairros, por puro vandalismo, pessoas jogam pedras nos ônibus, quebrando vidros e amassando a lataria, resultando em mais um alto valor que temos que desembolsar”. Ele acrescenta que um ônibus em situações rotineiras já representa custos altos de manutenção, e quando os problemas são provocados esse valor pode chegar a dobrar.
 
Motorista instrutor da Pantanal Transportes, Antônio Trinetti, é quem mostra à reportagem os danos provocados pela falta de conscientização da população. “Rasgar os encostos e assentos, escrever com corretivo, caneta ou até estilete nos bancos é algo rotineiro dentro dos ônibus. Mesmo tendo um retrovisor interno e câmeras dentro do veículo, eles não se intimidam e na maioria das vezes saem impunes”. Trinetti diz que ao observar os cordões da campainha é possível ver que muitos possuem pequenos nós, o que é uma maneira rápida e econômica de solucionar mais uma consequência do vandalismo. “Não entendo porque cortam os cordões. Isso atrapalha o desempenho do nosso trabalho, pois sem a campainha não temos como saber quando um passageiro quer descer. Então, a solução rápida é o próprio motorista amarrar as pontas cortadas”.
 
Todos os veículos da Pantanal Transporte são monitorados por câmeras de segurança interna. Mas nem isso intimida os atos de irresponsabilidade com o patrimônio público. “Todos os dias, quando os ônibus são deixados na garagem, os cartões de memória são retirados e outros vazios são postos no lugar. No dia seguinte nossa equipe analisa todas as imagens e caso seja notado algum crime, desde assaltos a vandalismo, separamos e encaminhamos para a delegacia”, explica o coordenador de planejamento, Rafael Alves. Ele pontua que é muito difícil reconhecer os criminosos pelo vídeo pois, às vezes, não dá para ver nitidamente o rosto da pessoa. Porém, há casos em que a polícia consegue identificar os indivíduos. “Ainda assim, nunca conseguimos ser ressarcidos por danos que alguém tenha causado em um dos ônibus”.
 
Para a psicóloga e coordenadora de Relações Humanas da empresa, Taline Comarella, o ponta pé inicial para que se reverta os casos de vandalismos cometidos contra o transporte público é a conscientização. “Por isso, a Pantanal Transportes desenvolve o projeto ‘Conhecendo o mundo do transporte coletivo’. Uma parceria com escolas, que tem como objetivo mostrar aos alunos a importância de conservar os ônibus”. Comarella explica que os estudantes são levados até a garagem e apresentados a todos os setores. Depois disso, é feito um passeio cultural. “Eles conhecem todos os processos de manutenção dos ônibus e têm acesso aos gastos que ações mal intencionadas podem causar para eles próprios e suas famílias. Acreditamos que esse conhecimento pode ser disseminado e em um futuro próximo, o vandalismo acabe”.